Quarta-feira, Abril 30

Desafinado
Como eu fui ao show do João Gilberto na sexta, me sinto no direito de explicar uma coisa: por que eu não gosto de "Desafinado".

É basicamente por causa da letra. Eu não sei se a melodia repete a idéia central, ou se a idéia já está tão presa (pela audição exaustiva) à melodia que a segunda acaba sugerindo a primeira. Mas vamos à letra.

O eu-lírico se dirige a um interlocutor, que o acusou de desafinar. E responde à acusação, no começo esboçando três linhas de argumentação. A primeira é dizer que o problema está no acusador, que é exigente demais ("Só privilegiados têm ouvido igual ao seu"). A segunda é desatribuir à bossa-nova a necessidade de afinação. Essas duas são discutíveis, porém razoáveis. Aí vem o terceiro argumento, que é o escolhido para o resto da música. O problema com a acusação é que ela machuca, que eu sou tão legal e você insiste em me apontar defeitos. Oras! Levante-se e lute como um homem! Enfim, meu problema com "Desafinado" é a auto-comiseração. Além de não gostar do trocadilho da máquina fotográfica.

O mais engraçado é que uma discussão sem fim, porque um acusador racional não vai se deixar render pelos apelos sentimentais do acusado, e o acusado chorão não vai discutir em termos racionais. E a música faz (e este talvez seja seu mérito, apesar de tudo) com que eu me coloque na posição desse acusador. Ao dizer que não gosto de "Desafinado", provavelmente terei como resposta que os piegas também têm um coração. Bleh! Eu sou insensível mesmo, e daí? Vai chorar?